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10 dezembro 2008

Beijo


Nos arredores da cidade ninguém notava,
Éramos apenas mais dois rostos anónimos
Correndo de mãos dadas, saltávamos
Por entre os despojos da grande metrópole,
Nome maior que a cidade lhe dávamos
Com ironia, gozávamos e ninguém reparava.

Nos arredores lamacentos da metrópole,
Os segundos, na ampulheta, tombavam
grãos de desespero, juntando horas,
sonhos efémeros, saudosas partidas
E chegadas passageiras - demoras! -
Espíritos sufocados pela mesquinhez,
Dizias, e apertavas a minha mão.
Juntas as nossas esperanças, corríamos
Pelas traseiras das casas, despojos
Ou quintais, muros cercando outros sonhos
Outras esperanças, fantasias e ânsias
Que outros, como nós, nunca largaram.
Dentro das casas os sonhos eram
Esboços apenas, de quadros que haviam
De pintar - se nas suas vidas houvera
Aquele momento que tanto aguardaram
Aquelas veredas escondidas que imaginaram
Se houvera nas suas vidas a primavera,
Aqueles caminhos misteriosos que vão
Terminar em douradas mansões,
longos serões - oh vida! - felizes verões...
Crescemos. Os nossos sonhos eram -são! -
Vidros em queda. E a esperança um espelho
Que nada reflectia - ou apenas um velho
Sonho quebrado no duro chão da vida -
Largaram-se as nossas mãos. Perdida,
A esperança esvaiu-se entre os dedos,
Ficámos sozinhos, nós e os nossos medos...

Hoje, também nós somos habitantes
Dos arredores dos sonhos, esperança...
Fechámos o centro dos nossos espíritos
- Comércios que abriram falência -
E fomos viver para casas mais baratas.

Agora, de quando em quando, suspiramos
Observamos o horizonte, questionamos
- Mas não queremos ouvir respostas -
Facas espetadas nos nossos corações -
O que é feito do beijo que não demos?

Poema de André Benjamim, publicado na revista cultural Praça Velha, n.º 24